Artigo 1

Viajar de avião: que BOM!

Hoje estou solidário. O espírito revolucionário Polaco 1982 tomou conta dos meus dedos. As próximas linhas são uma palmada nas costas… um aperto de mão… um beijinho na bochecha… a todos os que neste momento estão dentro de um avião. Àqueles que gostariam de ir à janela e estão na fila do meio. Aos que daqui a três minutos vão cometer o primeiro crime, por já não aguentarem o ataque de tosse COUGHHH de quem está na fila de trás. Passageiros da turística estou com vocês…

Texto de Francisco Salgueiro

A minha vida é feita de tops. Tudo o que acontece vai para uma categoria. O top 3 dos bichos mais indefesos que esborrachei com o punho. O top 3 dos meus vizinhos que gemem mais alto quando estão a deglutir-se mutuamente. Todos estes tops são seres com vida própria. A cada semana há entradas directas para os primeiros lugares. Expulsões. Descidas. Desclassificações técnicas. Aldrabices. Nem uma sexta feira de Masterplan é tão animada.

Mas estranhamente, e desde que fundei o “Top 3- POR FAVOR TIREM-ME DAQUI!!!!” nunca houve uma única alteração. E a ocupar os três primeiros lugares deste categoria encontra-se a entrada num avião... através da 1ª classe.

Sempre que vou embarcar num avião rezo para que tenha havido o milagre do mexilhão podre. Que todos os passageiros tenham ingerido comida estragada e que estejam a gemer, curvados sobre a barriga e com quarenta e dois graus de febre, dentro das casas de banho do aeroporto. “Ai, Ai que vou morrer!!!”.

Anseio que ao entrar na classe turística a hospedeira me diga: “ Escolha o lugar que quiser. Hoje não vem mais ninguém. É o nosso único passageiro”.

Mas não. Isso nunca acontece. E ainda por cima sou torturando, porque obrigam-me a entrar no avião através da primeira classe. Porquê?! Para me sentir motivado a trabalhar mais e da próxima vez ter dinheiro para ir na primeira?!

Assim que entro na classe dos que ganharam o totoloto, têm contas em off-shore ou traficam armas/brancas/droga parece que acabei de entrar no Palácio de Queluz. O ar é sereno. As pessoas estão vestidas como se fossem para um cocktail com a presença da Caras. Estão tão calmas, que se me dissessem que tinham tomado uma caixa de Valiums extra forte não me admiraria.

As cadeiras chamam por mim. E dizem “Senta-te em cima do meu couro. É fofinho”. Não se ouvem berros estilo “Ó Jean Claude já te disse para parares de jogar a essa porcaria. Isso faz-te mal os olhos”. “Ó mãe, mas eu quero jogar ao Gameboy!”. Só faltam candelabros com lustres de cristal.

Os quatro segundos que demoro a atravessar este corredor deixam-me embalado, feliz por estar vivo, a caminho da minha classe, a cruzar os dedos na esperança do milagre do mexi... AHHHHHHHHHHHHHHHH!… parece que caí dentro da aldeia dos macacos.

Centenas de pessoas em pé. Todas tentam encaixar mais um saco de plástico dentro nos compartimentos. Por causa delas há uma bicha estilo segunda circular, sexta feira, oito da noite, inverno. Dá-se um passo a cada três segundos. Os meus olhos têm muita dificuldade em captar toda a agitação. Passam-se demasiadas coisas ao mesmo tempo. Tenho ideia de ver uma mancha difusa em movimento e pouco mais.

Ao passar pelas cadeiras, aliás micro cadeiras, as pessoas olham para mim. Noto que estão desesperadas. Parecem ir para a guilhotina. Os olhos pedem-me ajuda. Quero fazer alguma coisa por elas. Sinto-me em solidariedade. Lançar um disco? Um pirilampo mágico? Uma versão do jogo da mala dentro do avião? Mas os meus olhos respondem-lhes “Daqui a cinco segundos também vou estar com esse olhar”.

Altifalantes Made in Botsuana

Qualquer megafone da Feira Popular que avisa haver farturas a meio euro parece ser Digital Dolby Surround, ao lado do sistema de som dos aviões.

Um bilhete de avião não custa propriamente o mesmo do que um módulo de autocarro. Por isso não compreendo porque é que sempre que o comandante fala, só se percebe “Piii... Bliiii...Srs. Passageorz, bein vizzzdos ao nozzzzu aviae, plink, plonk, bunk”.

É um esforço para além dos limites de audição descritos nos livros de medicina, a tentativa de descodificação daquilo que nos tentam dizer.

E eu fico sempre preocupado, porque a meio da viagem e quando o comandante começa a falar connosco, nunca sei se estará a dizer “Espero que estejam a gostar de voar na nossa companhia”, ou “Espero que tenham os coletes postos porque vamos cair”.

Se não quiserem gastar dinheiro em novos altifalantes… please… arranjem uma forma diferente de comunicar com os passageiros. O nosso coração entra em modo pânico sempre que ouvimos “Srs. Pazajairzz… “. Estas são as três primeiras hipóteses que aterraram na minha cabeça: sinais de fumo ou de espelho; papelinhos que passam de passageiro em passageiro e código morse.

A tosse…!!!!!!!

Quando viajo, há sempre alguém que tem tosse... Cough...Cough... Cough... Atchim… que culmina com uma sobremesa de espirros. SEMPRE! E não é uma tosse qualquer. São mísseis biológicos disparados para todos os lados. Bactérias que voam em direcção a corpos inocentes, que rezam para não serem infectados por nenhuma doença durante a viagem (eu, por exemplo); O som que emana daquelas gargantas parece uma parada militar desgovernada, tambores amplificados por cordas vocais recheadas de doenças.

Antes de se embarcar deveria ser feito o teste da tosse. Algo do estilo teste do álcool para evitar que pessoas sãs não ficassem com morte precoce do ouvido, ou com a visita de uma doença indesejada para jantar.

Quem tivesse uma taxa de tosse superior a 0,5 (cinco ataques de tosse numa hora) teria de ficar em terra, ou como opção iria no contentor de bagagens.

As toalhinhas

Alguém consegue explicar-me para que servem aquelas toalhinhas quentes que as hospedeiras e os comissários de bordo entregam depois do avião levantar vôo?

Já viram os senhores das portagens da Brisa a darem um paninho quente no final da auto-estrada, para limparmos o suor das mãos, causado pelos sete desastres que nos safámos por milímetros?!

E mais. Se eu estou a suar, estou quente, e a última coisa que me apetece é ter de limpar as mãos a um pano que ainda está mais quente do que eu!

E mais mais. Já repararam no ar enojado das hospedeiras quando nos entregam o paninho quente. Colocam-no na ponta de uma pinça xl de plástico ou metal, deslocam a cara ligeiramente para trás e afastam-se rapidamente. Porque será?

3, 2, 1… Largada

Quando o avião aterra, e finalmente fica imobilizado, até parece que acabaram de anunciar que estão a oferecer o biquini de diamantes da Fátima Lopes à primeira pessoa que chegar à sala das malas.

Qual cem metros nos jogos olímpicos, qual carapuça. Mal aterra e zááássss, mais depressa do que as mudanças de pneus numa corrida fórmula 1, 99% das pessoas que estão no avião levantam-se.

Abrem os compartimentos da malas, e começam a empurrar. Queremos sair! Queremos liberdade! O povo unido jamais será vencido!

Subitamente o avião inteiro parece que se transformou no motim dentro de uma prisão brasileira. Só falta começarem a deitar fogo às cadeiras e atirarem com faixas para fora das janelas a dizerem “Papámos os chibos!!”.

Para quem passou no mínimo duas horas dentro do avião, qual a importância de mais três minutos sentados?! Hein?!

Quilos de inutilidades

Garanto que não há ninguém que leve mais coisas para férias do que eu. Juro! De modo algum! Para além das roupas interiores e exteriores que vão na mala principal, levo uma mochila com: 4 livros, 7 revistas compradas no ex-free shop, Game boy com uns 18 jogos, máquina fotográfica com duas objectivas e 5 filtros, 15 rolos, câmara de vídeo, 3 cassetes, telemóvel, carregador, discman e 23 cds. Ufff… Basicamente sou uma loja de electrodomésticos andante, sem alarme e facilmente assaltável. Sou uma pepita de ouro para qualquer ladrão.

Mas consigo guardar tudo isto dentro de uma mochila. Muito apertada… sim, é um facto. Parece o soutien da Pamela Anderson, em esforço redobrado, mas cabe tudo lá dentro. São pelo menos uns 7 quilos que as minhas costas carregam e que fazem com que já tenha estado mais longe de me transformar num corcunda.

Por ser o rei das inutilidades levadas para férias tenho o direito de dizer BASTA! Porque raio é que há pessoas que levam sacos, saquinhos, malas, malinhas e maletas para dentro do avião?!

E como normalmente são as que entram primeiro, espalham os sacos do Pingo Doce, Zara e Continente pelos compartimentos. E esgotam logo o espaço todo. Não fica um milímetro disponível. Nada. Tenho de levar com os 7 quilos da minha mochila em cima de mim durante toda a viagem.

Se eu consigo compactar tudo dentro uma mochila, porque haverá que leve 4 sacos de plástico para dentro dos aviões?! O que irá lá dentro que seja assim tão importante e que não possa ficar em Lisboa, ou que não possa ser misturado com o conteúdos dos outros sacos: Um cozido à portuguesa dentro dum tacho? Uma família de bacalhaus? Um trem de cozinha? Um jogo de atoalhados? Um colchão molaflex?

Quero um lugar à janela!

A comida é para ser comida. Certo? A água é para ser bebida. De acordo?! O objectivo de se ir à janela de um avião é para se poder olhar para fora. OK?! Então, se há poucos lugares à janela, quem lá vai deverá ser obrigado a olhar por ela durante toda a viagem!

Conseguem explicar-me porque há pessoas que vão à janela e:

•  Fecham a tampa, porque chatice das chatices está a entrar muita luz e incomoda imenso;

•  Não fecham a tampinha, mas também não olham lá para fora meia vez. Lêem revistas, jornais, a etiqueta dos ingredientes da comida do almoço ou ficam a olhar para as costas do banco da frente bêbedos nos seus pensamentos;

•  DORMEM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Se não fico à janela a minha pele deita uns três litros de água durante uma viagem de meia hora. Preciso sempre de verificar se não haverá um monstro a comer parte da asa. No fundo, bem lá no fundo, tenho esperança de encontrá-lo, conseguir filmá-lo e vender a cassete à CNN, enriquecer, reformar-me e passar a vida a organizar festas com coelhinhas da Playboy, Penthouse, Hustler e Gina a saírem de dentro de um bolo.

Já que antes do embarque se perde tanto tempo a responder a perguntas vitais, pertinentes e de extrema utilidade como “É terrorista ou alguma vez esteve envolvido em actividades terroristas?”, “ É comunista, foi ou gostaria de ter sido?”, não vejo mal nenhum que todos tivéssemos que passar pelo Teste-janela. Um pequeno questionário, com perguntas estilo:

Se estiver no lugar à janela e adormecer o que faz? a) Pede desculpa a quem está ao seu lado e promete que torna a acontecer; b) Vira-se para a hospedeira, mostra a tatuagem “Cova da Moura – Luta de Pitbulls Verão 2002” e diz-lhe “Estás a olhar para aonde chavala?! Paguei este lugar e faço com ele o que me apetecer! Tás a perceber?!”.

Um chichizinho

Como é que 10 minutos após a partida, 80% dos passageiros têm um súbito ataque de vontade de irem à casa de banho?! É um dos fenómenos mais estranhos da aviação. Rapidamente o corredor central parece a portagem da Marateca no dia 1 de Agosto. Mães, filhos, pais, cães, todos metem as mãozinhas junto à bexiga em sinal de grande aflição. Mas será que ninguém dá uso às casas de banho dos aeroportos?! Elas existem! Elas estão lá para serem usadas!

Por muita vontade que tenha, aguento-me. Só de pensar que para exercer qualquer necessidade tenho de fazer contorcionismo para me conseguir mexer dentro das micro casas de banho, prefiro esperar que o tempo passe.

O risco de fazermos uma lesão é monstruoso. Os movimentos têm de ser tão lentos como se estivéssemos na superfície da lua. Qualquer gesto brusco pode significar a cabeça ir contra o espelho e ficarmos com uma fonte na nossa cabeça a jorrar sangue. Um desequilíbrio pode levar a que para ampararmos a queda o braço acabe por ficar dentro da sanita.

Os potenciais desastres dentro de uma casa de banho são imensos. Mesmo que tenham assim tanta vontade, façam meditação, entrem em hibernação e fiquem num estado vegetativo. É o mais seguro. Acabei por me desviar do assunto: porque é que mal o avião levanta, o vírus bexiga apertada entra em acção?

Hospedeiras ao léu

E só para terminar: senhoras e meninas hospedeiras. Não vale a pena perderem tempo com as demonstrações em forma de mimo, antes do avião levantar voo. Não se cansem. Se estivessem nos Restauradores ainda fariam uns euros.

Mas dentro do avião vocês têm menos audiência do que a RTP2. Nessa altura a nossa atenção divide-se entre contar o número de pelos que temos no braço, experimentar novas maneiras de darmos laços nos atacadores e testarmos se o botão para a cadeira ir para a frente e para trás funciona.

Se fossem professoras poderiam mandar o aluno desatento para a rua com falta a vermelho e uma chamada telefónica aos pais para uma reunião com a directora. Mas vocês nada podem fazer.

Eu quero ajudar-vos. Não consigo ver mais o vosso sofrimento em silêncio. A dor que alastra pelos vossos corpos. Deixo algumas sugestões que garanto aumentarão as audiências dentro dos aviões. Hipótese 1) Vão-se despindo à medida que mostram as saídas de emergências e o local do pipo da bóia - muito SIC Radical; Hipótese 2) Vão-se despindo à medida... peço desculpa mas estava cheio de ideias, e agora isto não me sai da cabeça... peço desculpa... vão-se despindo... peço desculpa... peço desculpa.

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